Piloto de S. Pedro do Sul aclamado herói após livrar da morte quase certa um canino perdido na estrada, arruinando a possibilidade de ser o mais rápido no Constálica Rallye Vouzela, tornando-se viral nas redes socais
Carlos Matos “escreveu” uma história verdadeiramente assombrosa já na parte descendente da quarta edição do Constálica Rallye Vouzela. Tudo aconteceu na segunda passagem por Madremax/Penoita – penúltima prova especial e a mais longa da competição (8,75 km) –, quando um cão surgiu repentinamente a vaguear em pleno troço, precisamente na altura em que o piloto de S. Pedro do Sul, navegado por Bino Santos, desferia um “ataque” cerrado com o Ford Fiesta R5 para superar Vítor Pascoal e Pedro Alves (Porsche 997 GT3).
Com os dois pilotos a partirem para esta especial exactamente com o mesmo tempo, um pequeno deslize poderia deitar tudo a perder, pelo que a concentração foi a táctica estabelecida para evitar equívocos que colocasse a pretensão em perigo.
Carlos Matos, que venceu as três primeiras edições da prova do Gondomar Automóvel Sport, promovida pela Promolafões, revelou-se implacável na hora de tomar uma decisão que lhe custou o hipotético “tetra” mas que, nas bocas do mundo e nas redes sociais em particular, o piloto de S. Pedro do Sul passou, num ápice, a ser o “herói” do Constálica Rallye Vouzela.
Com o pequeno cão posicionado no centro da via de comunicação e Carlos Matos a surgir em alta velocidade com o intuito de reclamar o tempo mais rápido na tomada de tempos, a história ganhou imediatamente contornos verdadeiramente excepcionais.
Fruto de um gesto de heroísmo e generosidade, o piloto de S. Pedro do Sul optou por travar abruptamente o Ford Fiesta R5, perder muito tempo com um pião. Com os índices de confiança e concentração em baixo, o regressar ao asfalto também foi doloroso, com a perda de mais uns segundos preciosos.
Acto de um verdadeiro campeão
Uma decisão que “arruinou” a legítima vontade de alcançar o “tetra” para salvar um cão completamente perdido no meio da estrada. Uma história sensacional. Carlos Matos fez valer os seus princípios, relegando para planos secundários a competição. Salvar a vida de um animal, abdicando do resultado que o conduzisse à vitória, é sem dúvida um acto de um verdadeiro campeão.
“Há pequenas coisas que são maiores que tudo. Uma atitude nobre vale muito e define o carácter de um verdadeiro campeão”, escreveu Valter Vicente, na sua página de Facebook, quando soube desta história que se tornou viral nas redes sociais. A atitude «ganha ainda mais significado quando se está a discutir a vitória”, escreveu, por seu turno, David Silva, juntando-se a centenas de mensagens pelo acto heróico de Carlos Matos, após livrar da morte quase certa do cão que circulava em plena especial, colocando em risco a competição.
Confrontado com a onda de solidariedade, o piloto de S. Pedro do Sul asseverou que quando partiu para a especial «estava rigorosamente empatado com o Vítor Pascoal e só pensava em ganhar o rali, sabendo de antemão que o Ford Fiesta R5 estava mais adequado para superar o piso sujo». «Entrei com o espírito de ganhar sem descurar a diversão e, face aos índices de confiança elevados, a possibilidade de desempatar a nosso favor madurecia no pensamento», avançou Carlos Matos.


No entanto, esse pensamento foi imediatamente “embargado” quando, numa curva, bastante suja, «apareceu o cão e, ao tomar a decisão correcta de desviar o Ford Fiesta R5 da trajectória para não matar o animal, disse ao Bino Santos, o meu navegador, que o rali estava irremediavelmente perdido e, a partir deste contratempo, levantei o pé e impus um andamento moderado para não correr riscos desnecessários», confidenciou.
«O cão não era muito grande, mas nesta vida não vale tudo. Quem me conhece sabe que tenho uma enorme admiração por animais. Tenho em minha casa cinco cães, havendo um que, à noite, não se deita enquanto não chegar. Caso o episódio se repetisse hoje, faria exactamente a mesma coisa», sustentou o piloto.
José Correia, patrocinadores e RMC estão de parabéns
Relativamente à chuva de palavras de gratidão que têm “alagado” as redes sociais, Carlos Matos foi peremptório na resposta: «Obviamente que fico muito satisfeito, porque as pessoas adoram cada vez mais os animais e ficaram muito radiantes pela postura evidenciada».
O carácter das pessoas define-se por estas atitudes. Carlos Matos revelou ainda que está «sensibilizado pelas mensagens e telefonemas recebidos, dando conta do que fiz e, naturalmente, que me deixa muito feliz».
Carlos Matos afiançou que está «orgulhoso do meu filho (João Marcelino), que estava a fazer uma prova bastante boa, mostrando excelentes capacidades ao volante». «Não posso deixar de felicitar a meu navegador Bino Santos pela compreensão com a atitude tomada, mas também dar um abraço a Valter Cardoso, o navegador do meu filho, pelo trabalho desenvolvido, transmitindo-lhes as normas adequadas para evoluir, bem como felicitar o Luís Martins e Rui Raimundo pela prova que fizeram».
O piloto de S. Pedro do Sul, aproveitando a oportunidade para agradecer a todos os patrocinadores e RMC, preparador espanhol de viaturas de competição com um forte contingente de equipas Carlos Matos Team no Constálica Rallye Vouzela, deixou uma palavra de apreço à organização da prova.
«É com muito orgulho que constato que a organização do Constálica Rallye Vouzela está cada vez melhor e, ano após ano, os aperfeiçoamentos não passam despercebidos, com particular ênfase para a componente da promoção, mostrando como se faz a festa dos ralis, sendo um modelo a seguir por outras estruturas organizativas. Não posso deixar de dar um forte abraço de regozijo ao José Correia pelo trabalho exemplar que tem desenvolvido desde a primeira hora, bem como para a Promolafões e Gondomar Automóvel Sport. O Constálica Rallye Vouzela é uma prova de excelência e já com alguns pergaminhos, que enche de orgulho a comunidade de Vouzela e de Lafões», disse, em jeito de rodapé, o piloto de S. Pedro do Sul, Carlos Matos.